Maria Stefanon incorpora em sua pintura resquícios de ninhos abandonados e leva ao Revoada a discussão da crise climática a partir de sua obra

Maria Stefanon incorpora em sua pintura resquícios de ninhos abandonados e leva ao Revoada a discussão da crise climática a partir de sua obra

Artista de Vila Velha é uma das duas capixabas entre os 13 selecionados para o I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa; obra de 2024 traz os primeiros sinais da materialidade que ganharia espaço em sua pesquisa

A artista visual Maria Stefanon está entre os 13 nomes selecionados para o I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa, o Revoada, e é uma das três capixabas do grupo. Com concepção, produção, curadoria e expografia de Vânia Cáus e gestão de Lourdes Ferolla, o salão acontece de 3 a 30 de novembro e reúne trabalhos em torno do tema “A Crise Climática na Perspectiva da Arte”, aproximando a criação contemporânea das discussões sobre meio ambiente que hoje mobilizam cientistas, governos e sociedade civil.

A proposta parte de uma premissa simples e urgente: se os relatórios e os números já mostram a dimensão da emergência ambiental, cabe à arte criar outras formas de percebê-la. É nesse território que se insere o trabalho de Maria, que há mais de duas décadas investiga as relações entre natureza, território, corpo e cotidiano.

Duas décadas de pesquisa em Vila Velha

Maria vive e trabalha em Vila Velha, onde desenvolve sua pesquisa há mais de 20 anos. Bacharel em Artes Plásticas e licenciada em Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), tem a pintura como eixo de sua produção. Suas paisagens simbólicas transitam entre realidade e imaginação, partindo da observação do entorno sem se prender ao registro fiel.

 

A trajetória inclui exposições no Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília, além de oficinas de pintura com Ivanilde Brunow e Carlos Fajardo, nomes de referência na formação de artistas no país. Uma de suas obras integra o acervo do 38º Batalhão de Infantaria do Espírito Santo.

Ao lado da produção em ateliê, Maria construiu uma sólida atuação como arte-educadora e oficineira, com participação em projetos sociais e de formação em artes. Essa dupla inserção, entre a criação e a sala de aula, ajuda a entender o modo como ela pensa a função da arte no mundo: menos como objeto de contemplação distante e mais como experiência capaz de provocar deslocamentos em quem a encontra.

Ninhos, texturas e formas orgânicas

A obra selecionada para o Revoada, de 2024, dá um primeiro passo nessa direção. Nela, Maria associa as formas orgânicas que caracterizam sua pintura a texturas obtidas de restos de ninhos abandonados, recolhidos em suas andanças pela natureza. O que um dia foi abrigo, construído fio a fio por aves, e depois deixado para trás, passa a habitar a superfície da tela.

A escolha do material não é neutra. O ninho é uma das arquiteturas mais delicadas do mundo natural, feita de galhos, folhas, fibras e restos que a própria paisagem oferece. Ainda assim, a artista considera tímida a presença da matéria nesse trabalho: os elementos orgânicos estão ali, mas a pintura segue como protagonista. É uma semente do que viria depois, quando a materialidade se afirmaria com mais força nas obras seguintes.

O ninho, por sua vez, seguiria como matéria de pesquisa, mas por outro caminho. Em vários trabalhos de Maria, ele aparece de forma sutil, sem se impor como presença física. Surge mais como resquício, como algo que a presença humana dissipou: menos o objeto e mais o rastro que ficou dele.

Num salão dedicado à crise climática, essa ideia ganha ainda mais peso. Ao trazer para o quadro vestígios de vida animal, ainda que discretos, Maria coloca em cena a fragilidade dos ciclos naturais e a marca do tempo sobre eles. O ninho vazio, imagem ao mesmo tempo de abandono e de continuidade, sugere uma reflexão silenciosa sobre o que estamos deixando para trás em meio à emergência ambiental, e sobre os abrigos que ainda resistem.

Quando a tela pediu outras coisas

“Durante muito tempo a pintura foi o meu único território. Mas chegou um momento em que a superfície da tela começou a pedir outras coisas”, conta Maria.

Se a obra de 2024 abriu essa porta com timidez, os trabalhos seguintes a atravessaram. Linhas, colagens, lãs e bordados foram sendo introduzidos aos poucos, somando-se às texturas e aos elementos orgânicos e ampliando as possibilidades materiais e poéticas de sua produção. “Foi uma virada importante na minha trajetória, que me fez repensar o próprio lugar da pintura”, afirma.

O ritmo dessa transformação diz muito sobre o próprio trabalho. Para Maria, o modo de construir a obra dialoga com os processos da natureza. “A natureza surge aos poucos, lentamente. Uma floresta leva anos para se tornar quem é. Quando bordo, colo ou acrescento elementos orgânicos ao trabalho, também estou construindo, camada por camada, essa natureza imaginária”, diz.

Olhar para a obra de 2024, portanto, é olhar para a origem desse percurso: o primeiro sinal de que a tela, além de superfície de representação, poderia acolher a matéria do mundo.

Uma natureza vivida, e ferida

“A natureza nunca aparece no meu trabalho como um cenário distante, algo que a gente só contempla de fora. Ela é presença, é corpo, é território. Não é uma natureza idealizada, é uma natureza vivida”, afirma Maria.

Na obra que leva a Santa Teresa, a artista constrói uma paisagem simbólica em que se sobrepõem camadas de memória, imaginação e inquietação. As referências vêm da Mata Atlântica, dos rios e do que ela chama de “pequenas vidas que resistem”, uma convivência delicada que o trabalho procura traduzir em forma.

A consciência da crise atravessa essa construção. “Diante da crise climática, não dá mais para pintar a natureza apenas como beleza intocada. Ela está ferida, em transformação, e isso atravessa a imagem”, diz. Ainda assim, Maria não abre mão de uma dimensão de esperança: quer que o trabalho guarde a possibilidade de um reencontro entre as pessoas e o ambiente que habitam.

Santa Teresa como cenário

A escolha de Santa Teresa como sede do salão reforça o sentido da proposta. Cercado pela Mata Atlântica, com nascentes, cachoeiras e uma biodiversidade reconhecida, o município da região serrana capixaba tem uma relação histórica com a preservação ambiental. Foi ali que viveu e trabalhou o naturalista Augusto Ruschi, referência no estudo dos beija-flores e na defesa das florestas brasileiras.

O salão se espalha pela cidade: as obras e atividades ocupam o Museu Mello Leitão, ligado ao Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), a Galeria de Arte de Santa Teresa (GAST), a Rua do Lazer, o Centro e o Vale do Caravaggio. A programação é gratuita, e algumas atividades exigem inscrição prévia.

“Acontecer em Santa Teresa, uma cidade tão ligada à mata, às águas e à biodiversidade, dá ainda mais sentido à proposta”, observa Maria. Para uma obra construída a partir de ninhos, o diálogo com o lugar dificilmente poderia ser mais direto.

A força da produção capixaba

Ser uma das três capixabas selecionadas tem, para a artista, um peso simbólico importante. “Recebo essa seleção com muita alegria e também com senso de responsabilidade. Mostra que a produção feita aqui no Espírito Santo tem força, tem pesquisa e dialoga com as grandes questões do nosso tempo.”

Maria vê no reconhecimento também uma oportunidade de circulação. “É uma chance de mostrar que o que produzimos aqui merece circular dentro e fora do estado.” E faz questão de lembrar de outras trajetórias: “Penso em tantas artistas capixabas que trabalham há anos, muitas vezes com pouca visibilidade. De algum modo, levo essas trajetórias comigo.”

Depois de mais de 20 anos entre ateliê, oficinas e sala de aula, ela entende a seleção como a confirmação de uma escolha. “Esse reconhecimento confirma que vale a pena insistir em uma produção enraizada no território onde vivemos.”

Arte para mudar olhares

Como arte-educadora, Maria aposta no poder da experiência estética como caminho para a consciência ambiental. “A arte tem uma capacidade que os dados e os relatórios nem sempre alcançam: ela toca a sensibilidade das pessoas”, afirma. Para ela, um salão que reúne artistas de diferentes linguagens em torno da crise climática, com a curadoria de Vânia Cáus, cria um espaço de encontro, escuta e reflexão coletiva.

“Quando alguém para diante de uma obra e se sente provocado, algo se desloca por dentro. Não se trata de oferecer soluções prontas, mas de despertar consciência e afeto pelo lugar onde vivemos”, diz.

A artista sabe dos limites desse gesto, mas não o subestima. “A arte não muda o mundo sozinha, mas pode mudar olhares.” Sua expectativa é que o público saia do Revoada com mais perguntas do que respostas, e com vontade de olhar para o próprio entorno com mais cuidado e responsabilidade.

SERVIÇO

REVOADA: Salão de Artes Integradas

Quando: 3 a 30 de novembro de 2026

Onde: Santa Teresa (ES), no INMA (Museu Mello Leitão), na GAST (Galeria de Arte de Santa Teresa), na Rua do Lazer, no Centro e no Vale do Caravaggio

Quanto: gratuito (algumas atividades exigem inscrição prévia)

Concepção, produção, curadoria e expografia: Vânia Cáus

Gestão: Lourdes Ferolla

Parceiros institucionais: INMA (Instituto Nacional da Mata Atlântica), INMA (Museu Professor Mello Leitão), Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de Santa Teresa, Chalé Azul e Sebrae