Cristina Rovesse costura novos sentidos para o descarte e participa da Revoada no Espírito Santo
A costura ultrapassa sua função utilitária no trabalho de Cristina Rovesse para se estabelecer como linguagem artística, procedimento de investigação e maneira de interpretar o mundo. Nascida em Brumadinho, Minas Gerais, em 2001, a costureira e artista visual desenvolve uma produção marcada pela utilização de tecidos, roupas, pinturas e objetos descartados ou de segunda mão.
Formada pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Cristina transita por diferentes linguagens, como pintura, escultura, instalação, fotografia e performance. Embora tenha escolhido a pintura como habilitação durante a graduação, encontrou no repertório têxtil, construído desde a infância, um dos principais fundamentos de sua pesquisa artística.
Em suas obras, rasgos, manchas, desgastes e costuras permanecem visíveis. Em vez de esconder as marcas deixadas pelo tempo e pelo uso, a artista reconhece esses vestígios como partes constitutivas dos materiais. Seu processo envolve desmontar, cortar, separar e reorganizar elementos que perderam a função original, abrindo espaço para outras possibilidades de existência e interpretação.
Plastia Anatômica

Da experiência familiar à formação artística
O contato de Cristina Rovesse com a costura começou dentro de casa, por meio da observação do trabalho realizado pelas avós para consertar as roupas da família. Segundo a artista, antes mesmo de se perceber como artista, ela já se reconhecia como costureira.
Aos 14 anos, incentivada pelos pais, Cristina ganhou sua primeira máquina de costura, uma Singer doméstica portátil que permanece com ela até hoje. Posteriormente, frequentou um curso gratuito de corte e costura oferecido por um clube de mães em Brumadinho. O espaço reunia mães, bebês e mulheres idosas em torno do interesse pela manualidade e pelo compartilhamento de conhecimentos.
Essa experiência influenciou diretamente sua formação em Artes Visuais. Mesmo tendo escolhido a pintura como habilitação, os tecidos passaram a ocupar um lugar recorrente em sua pesquisa, tanto como matéria quanto como recurso poético e pictórico.
Com o desenvolvimento da prática de ateliê, Cristina compreendeu que a costura não representava apenas uma linguagem artística, mas também uma forma de olhar, interpretar e se posicionar no mundo. Para ela, o trabalho da costureira envolve procedimentos como fragmentação, separação, corte, delimitação, tensão, sobreposição, junção, dobra e caimento.
A relação entre tecido e corpo também aparece como um ponto importante em sua produção. Ao modelar corpos e objetos, a costura cria superfícies carregadas de expressões plásticas, pictóricas e sociais. Nesse processo, vestir, cobrir, separar e unir tornam-se gestos capazes de revelar identidades, histórias e formas de apresentação diante do outro.
Materiais que preservam memórias
Os materiais descartados ou de segunda mão despertam o interesse de Cristina por carregarem vestígios de experiências anteriores. Roupas, tecidos e objetos sobrevivem aos seus proprietários, mudam de função e acumulam marcas provocadas pelo contato com diferentes corpos e ambientes.
Uma das referências de sua produção é o livro O casaco de Marx: roupas, memória, dor, de Peter Stallybrass. Na obra, o autor discute como as roupas podem sobreviver à brevidade dos corpos e se transformar em depósitos de memórias corporais e afetivas.
Rocalha e Como Pintar?

Essa compreensão está presente nos trabalhos em que Cristina decompõe algo existente para recompô-lo de outra maneira. Os sinais do uso anterior não são eliminados. Pelo contrário, tornam-se componentes visuais e conceituais da nova configuração.
Ao trabalhar com aquilo que foi abandonado, a artista não busca apagar a história do material. Rasgos, manchas, costuras, dobras e desgastes funcionam como registros de sua trajetória. A reorganização desses elementos permite revelar memórias inscritas nos próprios objetos e questionar os critérios que determinam quando alguma coisa deixa de ter valor.
Trajetória em exposições pelo país
A produção de Cristina Rovesse já circulou por diferentes instituições e espaços culturais brasileiros. Entre 2023 e 2024, participou da exposição coletiva Corações à Desmedida, apresentada no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro; na Casa do Povo, em São Paulo; e no Instituto Mário Quintana, no Rio Grande do Sul.
Em 2025, integrou Experiência Brumadinho, realizada no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e Buscar Horizontes, apresentada na Funarte Minas Gerais. No ano seguinte, participou de Minhas fronteiras não são linhas retas, na Galeria Diáspora, em São Paulo.
A trajetória evidencia uma pesquisa construída na aproximação entre técnicas tradicionalmente relacionadas ao trabalho manual e questões presentes na arte contemporânea. Em seu processo, a costura deixa de ocupar uma posição secundária e passa a organizar a maneira como a artista compreende o corpo, os objetos e as transformações da matéria.
Arte e crise climática na Revoada
Cristina Rovesse participa do I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa — REVOADA, no Espírito Santo. Com o tema A Crise Climática na Perspectiva da Arte, o salão reúne diferentes linguagens para refletir sobre consumo, sustentabilidade, biodiversidade, justiça climática e regeneração da natureza.
Ao todo, 13 artistas foram selecionados para a primeira edição: Cristina Rovesse, de Minas Gerais; Edivan Rodrigues, do Espírito Santo; Eliane Consalter, de São Paulo; Danielle Monteiro, de Minas Gerais; Gabriel Araujo, de Minas Gerais; Igor Reis, de Minas Gerais; Kyria Oliveira, do Espírito Santo;Laura Alkmím, de Minas Gerais; Maria Stefanon, do Espírito Santo; Máximo, do Rio de Janeiro; NEGROSOOUSA, do Ceará; Pedro Kubitschek, de Minas Gerais; e Sandro Barçal, do Rio de Janeiro.
A diversidade de origens e trajetórias coloca Santa Teresa em contato com diferentes perspectivas sobre a crise climática, aproximando a produção artística capixaba de trabalhos desenvolvidos em outras regiões do país.
O REVOADA tem produção artística de Vania Cáus. Para ela, o projeto nasce da intenção de fortalecer a relação entre a cidade, a produção artística e os debates do presente. “O REVOADA surgiu do desejo de criar em Santa Teresa um espaço permanente de encontro entre artistas, público e questões contemporâneas”, afirma.
Segundo Vania, a escolha da crise climática como tema parte da compreensão de que o assunto deixou de representar uma questão distante e já interfere diretamente na vida das cidades, das florestas, dos recursos hídricos e das comunidades. Nesse contexto, a arte oferece caminhos para sensibilizar o público e estimular outras formas de perceber as transformações ambientais.
Na mostra, Cristina apresenta Policromasia (2026), obra pertencente à série Estudos de Anatomia. O título se apropria de um termo da medicina, assim como acontece com os demais trabalhos da série. A pesquisa parte da metodologia anatômica de cortar um corpo em diferentes partes para tentar compreendê-lo em sua totalidade.
A série começou em 2024, nos ateliês de pintura da Escola de Belas Artes da UFMG. Durante esse período, Cristina percebeu que estudantes frequentemente abandonavam, esqueciam ou descartavam pinturas produzidas durante a graduação por não estarem satisfeitos com os resultados.
A artista passou, então, a recolher alguns desses quadros rejeitados e a rasgar as telas pintadas como se fossem tecidos. O rompimento da trama revelou cores, camadas e características das composições anteriores, simultaneamente expondo a natureza têxtil do suporte.
Cristina se interessou por aquilo que definiu como “pinturas laterais” e reuniu os fragmentos em bobinas formadas por telas rasgadas, comprimidas dentro de suas próprias estruturas de madeira. O processo altera radicalmente a configuração original das pinturas, mas mantém visíveis os vestígios de sua existência anterior.
Ressignificar o que foi rejeitado
Em Policromasia, a destruição não representa o desaparecimento completo da obra anterior. O gesto de rasgar também produz novas imagens e revela aspectos materiais que antes permaneciam encobertos pela superfície pictórica.
As telas deixam de funcionar apenas como suportes para a pintura e passam a ser tratadas como tecidos que podem ser cortados, reorganizados e comprimidos. Ao mesmo tempo, as estruturas de madeira perdem sua função habitual de sustentar e esticar a tela para se tornarem parte do novo corpo escultórico.
A obra estabelece uma relação com a crise climática ao questionar a produção excessiva, o desperdício e a rápida desvalorização dos objetos. Em um contexto econômico e social marcado pelo incentivo à produção massiva, Cristina propõe olhar novamente para aquilo que foi rejeitado, descartado ou considerado sem valor.
A reutilização desses materiais não aparece somente como solução prática, mas como posicionamento artístico diante dos modos contemporâneos de produzir e consumir. Ao preservar fragmentos das pinturas descartadas, a artista mostra que a matéria pode assumir novas configurações sem apagar completamente sua história.
Ressignificar aquilo que seria descartado significa, em sua produção, reconhecer a existência de possibilidades sensíveis e sustentáveis. A crise climática é abordada por meio da própria estrutura da obra, construída com materiais recuperados e transformados.
Um voo coletivo em Santa Teresa
A participação na primeira edição da REVOADA representa, para Cristina Rovesse, um marco de celebração, conexão e coletividade. A artista destaca a oportunidade de integrar o capítulo inaugural do projeto ao lado de criadores de diferentes trajetórias e linguagens, reunidos em torno de um tema que considera relevante e urgente.
A presença no salão também possibilita uma aproximação com a produção artística desenvolvida no Espírito Santo. Para Cristina, conhecer a cena local, estabelecer novas relações e ampliar os horizontes de sua pesquisa são experiências importantes em sua trajetória profissional.
A imagem do voo coletivo, presente no próprio nome do evento, sintetiza o sentido atribuído pela artista à participação. Ao reunir diferentes produções em Santa Teresa, a REVOADA cria um espaço no qual arte, memória material e responsabilidade ambiental podem ser pensadas conjuntamente.
Em Policromasia, aquilo que havia sido abandonado retorna ao circuito artístico sob outra forma. As pinturas rejeitadas deixam de ser resíduos de um processo acadêmico e passam a constituir uma obra que preserva suas marcas, questiona a lógica do descarte e apresenta a transformação como possibilidade de continuidade.

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