Laura Alkmím leva ao Espírito Santo uma pintura feita de afetos, memória e natureza

Laura Alkmím leva ao Espírito Santo uma pintura feita de afetos, memória e natureza

Artista mineira participa da REVOADA, em Santa Teresa, com obra que nasceu da observação de formigas e integra uma pesquisa sobre água, relações entre mulheres e a construção de mundos imaginados

Formigas entram e saem de um buraco no chão. Carregam pequenos fragmentos, percorrem caminhos e dão continuidade à construção do ninho. Ao acompanhar esse movimento, Laura Alkmím encontrou a pergunta que se tornaria o título de uma pintura: “Quantos grãos de areia são precisos para construir um corpo?”. Realizada em óleo sobre tela, em 2026, a obra será apresentada no Espírito Santo durante o I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa, a REVOADA.

Quantos grãos de areia são precisos para construir um corpo?

 

A cena observada pela artista mineira se aproximou de uma investigação que desenvolve sobre o amor como construção contínua. Em suas telas, mulheres habitam águas inventadas, lembranças se misturam a situações imaginadas e fotografias de momentos distintos dão origem a encontros que nunca aconteceram. A natureza participa dessa elaboração, oferecendo movimentos, matérias e formas de existência que ajudam a pensar os vínculos humanos.

Graduanda pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Laura reúne essas questões na série “Maré alta, (a)mar profundo”. A produção parte de experiências pessoais, da convivência com outras mulheres e de um interesse pela relação entre pintura, fotografia e escrita. Seu trabalho já circulou por Minas Gerais e Rio de Janeiro, com participações em exposições e mostras em espaços como Funarte MG, Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte e UFMG, além de uma exposição individual.

A água é uma mulher lésbica

Em Santa Teresa, na região serrana capixaba, sua pesquisa encontrará outras propostas reunidas em torno do tema “A Crise Climática na Perspectiva da Arte”. Com produção artística de Vania Cáus, a REVOADA contará com 13 artistas selecionados e abordará assuntos como sustentabilidade, biodiversidade, consumo, justiça climática e regeneração da natureza.

Das formigas à construção de um corpo

No texto “Maré alta, (A)mar profundo”, em que apresenta reflexões sobre a própria produção, Laura retoma o episódio que deu origem à obra escolhida para o salão. A observação das formigas despertou uma dúvida que se desdobrou para além do que estava diante de seus olhos. O corpo que desejava construir poderia ser o da pintura, o de uma mulher ou o do próprio amor.

Tem uma mulher presa em minha garganta

 

“Queria construir um corpo, que pode ser esse corpo-pintura, mas também esse corpo-mulher. Um corpo-amor”, escreve. A pergunta permanece aberta e acompanha o trabalho com a tinta, sem exigir uma resposta definitiva.

O interesse está no fazer constante. Ao relacionar o movimento dos insetos à experiência amorosa, a artista encontra uma afinidade entre reunir matéria, sustentar a vida e estabelecer vínculos. “Mas sei que amo profundamente, assim como as formigas. E amo porque construo. Ou o contrário.”

Tem uma mulher presa em minha garganta

Essa aproximação orienta também sua participação em uma exposição dedicada à crise climática. Laura identifica na atenção aos seres e aos processos naturais uma possibilidade de repensar as formas de organização da vida. “Observar os elementos da natureza nos traz a perspectiva de novas configurações de mundo”, afirma.

Em sua leitura, esses organismos e fluxos persistem diante de violências e tentativas de contenção, assim como os afetos de que trata. “Cabe a nós iniciar a construção de um mundo que parte do que as formigas e outros fluxos têm a nos ensinar.”

Da série pequenos naufrágios

A água como mulher e como matéria da pintura

Um sonho ajuda a compreender a presença da água nessa pesquisa. Laura conta que sonhou que a água era uma mulher que amava outras mulheres. A imagem passou a fazer parte de sua reflexão sobre a pintura e encontrou uma referência na ideia de Tales de Mileto, retomada por ela no texto, de que “tudo é água”. Em sua formulação poética, a artista desloca essa afirmação para outra possibilidade: “tudo é mulher”.

A água é uma mulher lésbica

A água assume diferentes funções na série. É o ambiente em que as figuras aparecem, mas também a matéria com a qual seus corpos parecem se constituir. Em vez de estabelecer uma separação rígida entre personagem e paisagem, Laura trabalha com passagens entre ambas. As mulheres são construídas junto às águas, às cores e aos demais elementos da composição.

“Acredito que o amor é um corpo em constante construção, assim como a pintura. Nesse sentido, a água surge como elemento que representa esse movimento contínuo”, explica.

A comparação se amplia quando aborda as condições de existência do amor entre mulheres. A capacidade da água de atravessar frestas, desviar de obstáculos e modificar a paisagem oferece uma imagem para relações que procuram seus próprios caminhos.

 

“Falar de amor, especialmente entre mulheres, é falar desse elemento que encontra caminhos mesmo diante dos obstáculos, contorna barreiras, infiltra-se, transforma a paisagem e segue seu curso apesar das tentativas de contenção.”

Nas telas, esse raciocínio ganha consequências visuais. Fundo e figura se misturam, a água pode virar céu e um travesseiro pode se transformar em barco. A atmosfera de sonho nasce dessas mudanças, que permitem às personagens ocupar espaços sem correspondência exata com os lugares fotografados ou lembrados.

As mulheres que formam seu olhar

Criada em um contexto majoritariamente feminino, Laura reconhece nas mulheres de sua convivência uma presença decisiva para a formação de seu olhar. Essa relação inclui pessoas próximas, lembranças familiares e figuras que encontra fora de seu círculo íntimo.

Sonhar sobre as águas

“Acredito que minha produção é constantemente atravessada pelas mulheres de minha vida e de fora dela. Sou feita de todas elas.”

Suas primeiras pinturas surgiram da relação com a avó, que tinha Alzheimer naquele período. Desde então, afeto e memória permaneceram em seu trabalho, mesmo à medida que os procedimentos e os interesses se modificaram. O sorriso da avó falecida, por exemplo, está entre as imagens que menciona ao descrever as referências usadas na criação das telas.

“Acredito que, desde então, as mulheres, o afeto e a memória são camadas que ainda acompanham meu trabalho, mesmo depois de tanta mudança”, conta.

Sonhar sobre as águas

No texto sobre a série, Laura também cita a pintora Jade Marra como uma referência. O interesse se volta para a maneira como Marra retrata os próprios afetos e as mulheres que compõem seu cotidiano. A proximidade está nessa atenção às relações vividas como assunto e ponto de partida para o trabalho artístico.

Em Laura, as pessoas de sua convivência reaparecem em composições que alteram seus contextos originais. A mulher amada, um casal de amigas ou uma desconhecida observando o sol podem integrar um mesmo universo pictórico, construído por meio da combinação de registros e da invenção.

Fotografias que se encontram na tela

A fotografia ocupa um lugar importante no processo. Laura utiliza imagens de sua autoria e reúne elementos provenientes de registros feitos em ocasiões diferentes. Um corpo pode vir de uma cena, enquanto a paisagem e os objetos têm origem em outras.

“Observo as mulheres de meu entorno, e aproximo corpos, paisagens e instantes que nunca estiveram juntos, como num sonho.”

Há fotografias espontâneas e outras produzidas com poses e cenários preparados. Nas imagens feitas na cama, a organização dos lençóis já considera a pintura que poderá surgir depois. As dobras dos tecidos são posicionadas de acordo com o movimento que a artista deseja dar às águas na obra final.

Cidade das águas

Esse procedimento estabelece uma continuidade entre a preparação da fotografia e a elaboração da tela. O tecido oferece sugestões de movimento; a posição dos corpos ajuda a estruturar a cena; a tinta transforma essas referências em outra paisagem.

Ao escrever sobre o processo, Laura aproxima sua prática das experiências de David Hockney com a combinação de fotografias. Interessa-lhe a possibilidade de reunir diferentes pontos de vista e fragmentos temporais em uma mesma imagem. Essa aproximação aparece como referência para pensar seu próprio modo de deslocar figuras, juntar lugares distantes e inventar situações.

A artista também recorre a reflexões de Susan Sontag sobre a fotografia, especialmente à abertura da imagem para diferentes sentidos e interpretações. Em sua pesquisa, o registro fotográfico oferece material para a ficção: aquilo que foi vivido pode ganhar outra configuração quando passa para a pintura.

“Observo as mulheres de meu entorno, mas as desloco, aproximo paisagens que na realidade são extremamente distantes, invento momentos”, escreve.

Uma certa distância da superfície

Entre a lembrança e o instante do olhar

As fotografias permanecem como referência até o fim do trabalho. Ao alternar o olhar entre a imagem e a tela, Laura percebe a sobreposição de diferentes experiências de memória. Há a lembrança recente do que acabou de observar e aquela, mais distante, do momento em que fez o registro.

Esse intervalo desperta seu interesse porque torna menos evidente a separação entre passado e presente. A fotografia pertence a um acontecimento anterior, mas volta a ser vista durante a execução da pintura. A cena lembrada se modifica no contato com as decisões tomadas no ateliê.

“Mais uma vez, me desloco da temporalidade enquanto uma linha reta, me interessa muito mais pegar esses recortes de tempo e construir algo novo. Um tempo que não existe”, escreve.

A pintura permite, assim, aproximar presenças e acontecimentos que estavam separados. A memória participa da elaboração da imagem ao lado da ficção, da cor e da matéria. O que surge na tela reúne aspectos reconhecíveis de uma experiência e elementos que só passam a existir durante o trabalho.

Laura admite que o tempo ainda é uma questão que não consegue decifrar inteiramente em sua produção. Essa indefinição acompanha a pesquisa e encontra desdobramentos na leitura e na escrita.

Poemas, haicais e imagens que começam nas palavras

Antes de algumas imagens, vêm as palavras. Laura escreve poemas e pequenos textos que ajudam a fazer surgir as composições. A literatura participa da preparação do trabalho, sem necessariamente aparecer como inscrição na superfície da tela.

“Muito me interessa a palavra, as expressões e a literatura no trabalho. Não enquanto elementos gráficos presentes nas imagens, mas talvez enquanto receita”, explica no material sobre a série.

O interesse pelos haicais se desenvolveu a partir de sua leitura de reflexões de Roland Barthes. Laura encontra nessa forma breve uma afinidade com a possibilidade de apreender um instante sem precisar desenvolver uma história completa. Um acontecimento cotidiano, um detalhe ou uma sensação podem oferecer matéria suficiente para a escrita e, em sua pesquisa, também para a pintura.

Sua atenção se dirige ainda ao uso do vazio e à disposição das palavras no papel. Ao transportar esse raciocínio para as telas, procura modos de dissolver a água no fundo e trabalhar as relações entre as figuras e o espaço ao redor.

Obras mencionadas no texto, como “Sonhar sobre as águas” e “A água é uma mulher sáfica”, ambas de 2026, ajudam a situar esse universo. Os títulos participam da construção de sentido e aproximam a produção pictórica das imagens formuladas pela escrita.

O verde, as contradições e o imaginário da infância

A escolha do verde ganhou novos sentidos com a leitura de “Verde, a história de uma cor”, de Michel Pastoureau. Laura destaca as associações entre essa cor e figuras como dragões, duendes e bruxas, discutidas no livro, e leva a reflexão para o imaginário brasileiro e para as experiências de sua infância.

Em sua interpretação, a instabilidade do pigmento e as simbologias contraditórias do verde oferecem possibilidades para abordar o amor e a identidade. A cor passa a dar unidade às águas da série, ao mesmo tempo que introduz questões sobre as condições sociais em que os afetos são vividos.

“Afinal, falar sobre amor é falar também de suas contradições e das condições que nos são dadas para amar”, escreve.

Nesse percurso, Laura recupera a cantiga “mulher com mulher dá jacaré”, que ouvia quando pulava corda. A lembrança aproxima uma brincadeira infantil das maneiras como as relações entre mulheres são nomeadas e tratadas no cotidiano. O jacaré, a Cuca e as bruxas aparecem em suas anotações como figuras a partir das quais pretende continuar elaborando essa discussão.

Trata-se de um desejo de desdobramento da pesquisa. A artista manifesta a vontade de incorporar esses seres às imagens e aproximá-los das personagens, explorando as relações entre palavra, cor e ambiente aquático.

“Tenho muita vontade, portanto, de trazer esses seres para minhas imagens, incorporá-los a essas mulheres, brincar com a palavra e com a cor. Ambos habitam as águas.”

A proposta estabelece uma tensão entre cenas de ternura, provenientes da memória e da convivência, e figuras do imaginário coletivo. Ao considerar essa aproximação, Laura procura transformar também os sentidos de expressões que acompanharam sua formação.

O encontro com o público no Espírito Santo

A participação na REVOADA amplia a circulação dessa produção e a coloca em diálogo com pesquisas de diferentes regiões do país. Para Laura, a diversidade de trabalhos reunidos no salão é uma das contribuições do evento ao debate sobre a crise climática.

“REVOADA é um encontro bonito de produções muito diferentes e que, portanto, fomentam o debate acerca de um tema tão importante. Serão 13 diferentes perspectivas e formas de ver o mundo”, afirma.

A artista destaca ainda o papel da iniciativa no fomento à arte contemporânea e à cultura, áreas que considera continuamente sucateadas. O encontro em Santa Teresa representa uma oportunidade de apresentar sua perspectiva e conhecer outras formas de abordar questões que atravessam sua produção.

A obra que levará ao Espírito Santo nasce de uma observação pequena e concreta: formigas trabalhando junto ao chão. A partir dela, Laura desenvolve relações entre a construção de um corpo, a continuidade dos afetos e os modos de vida encontrados na natureza. Com a exposição, essa investigação passa a receber também as experiências e interpretações de quem estiver diante da tela.

“É uma oportunidade gigante para fazer meu trabalho alcançar outros lugares, pessoas e olhares. Não tem como ele não crescer a partir disso.”