Pedro Kubitschek leva as águas do Rio São Francisco ao Revoada e alerta para rios que podem virar memória

Pedro Kubitschek leva as águas do Rio São Francisco ao Revoada e alerta para rios que podem virar memória

Artista mineiro integra o I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa com pinturas entre a figuração e a abstração, nascidas da convivência com o Velho Chico desde a infância

O movimento das águas, as transformações da paisagem e as relações entre corpo e território estão no centro da produção de Pedro Kubitschek, um dos artistas selecionados para o I Salão de Artes Integradas de Santa Teresa, o Revoada. Com concepção, produção, curadoria e expografia de Vânia Cáus e gestão de Lourdes Ferolla, o salão acontece de 3 a 30 de novembro e reúne artistas de diferentes regiões do país em torno do tema “A Crise Climática na Perspectiva da Arte”.

No caso de Kubitschek, a reflexão sobre a emergência ambiental tem nome e endereço: o Rio São Francisco. É das margens do Velho Chico, observadas ano após ano desde a infância, que o artista extrai a matéria de uma pintura que transita entre a figuração e a abstração e que trata a paisagem como algo vivo, instável e vulnerável.

A escolha não poderia ser mais simbólica. Em um momento em que secas prolongadas, assoreamento e perda de vegetação nas margens colocam em risco rios de todo o país, o trabalho de Kubitschek propõe um olhar demorado sobre aquilo que costuma passar despercebido: o rio como paisagem, como memória e como organismo que também adoece.

Entre o design e a pintura

Nascido em Belo Horizonte, em 1984, Pedro Kubitschek é formado em Design Gráfico pelo INAP-BH. A formação deixou marcas no modo como ele organiza a imagem, mas foi na pintura que encontrou o território para investigar questões que vão além da forma.

Em sua pesquisa, o artista explora as tensões entre o simples e o complexo, o físico e o emocional. Nas telas, a paisagem nunca aparece como cenário estático, pronto para ser contemplado de longe. Ela surge como um organismo submetido à passagem do tempo, ao curso das águas e às interferências humanas, sempre em processo, nunca concluída.

Essa oscilação entre figuração e abstração é parte central da linguagem de Kubitschek. Em alguns momentos, reconhecem-se margens, águas e vegetação; em outros, a imagem se dissolve em manchas, ritmos e camadas, como se a pintura tentasse acompanhar a própria instabilidade do rio que a inspira.

Uma trajetória com circulação internacional

A produção de Kubitschek já ultrapassou as fronteiras do país. O artista tem obras em coleções particulares no Brasil e no exterior e participou de exposições em Paris, Praga, Brno, Helsinque e Miami, além de São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas e Belo Horizonte.

Uma de suas obras integra o acervo do Museu da Imigração, em Ralsko, na República Tcheca. Em 2025, recebeu o Prêmio Estímulo Fora do Eixo no 17º Salão dos Artistas sem Galeria, promovido pela Zipper Galeria, em São Paulo, um dos espaços de projeção mais disputados por artistas que ainda não têm representação comercial.

A participação no Revoada, em Santa Teresa, acrescenta à trajetória um novo contexto: o de uma exposição pensada a partir da relação entre arte e meio ambiente, em diálogo direto com uma instituição científica dedicada à Mata Atlântica.

Férias às margens do Velho Chico

A relação com o rio começou cedo. Kubitschek passava as férias com o avô em Januária, no norte de Minas Gerais, em pleno sertão. “O Rio São Francisco é uma força da natureza e faz parte da minha história desde a infância”, conta. “Todos os anos, eu observava aquelas águas mudarem, as margens se transformarem e a mata se modificar.”

O olhar atento da criança que voltava ao mesmo lugar a cada ano acabou se transformando em método. A comparação entre uma temporada e outra, o reconhecimento das mudanças sutis e das mais drásticas, a percepção de que nada ali permanece igual: tudo isso alimenta hoje a pintura do artista.

Dessa convivência veio também um aprendizado que atravessa toda a sua obra: o rio que sustenta a vida ao redor é igualmente uma força que pode ser perigosa. “Aprendi que o rio sustenta toda a biodiversidade ao seu redor, mas também pode ser perigoso, com suas armadilhas e a força da correnteza”, lembra. “É uma paisagem aparentemente plácida, mas que está em constante movimento e transformação.”

Para o artista, essa revolta das águas não é apenas ameaça, mas também defesa. “De certa maneira, somos assim, e é assim que devemos compreender e proteger a natureza”, afirma.

Paisagem, corpo e espiritualidade

A instabilidade do rio, que muda todos os dias e carrega os rastros do que acontece em sua cabeceira, abriu uma série de questionamentos dentro da pesquisa de Kubitschek. A correnteza deixa de ser apenas um fenômeno natural e se torna metáfora de um território afetado por escolhas tomadas muito longe dali. O que se faz rio acima, de algum modo, chega a todos que vivem rio abaixo.

Há também uma dimensão espiritual nessa relação. O artista fala de um contato ancestral com o rio, da sensação de fazer parte de um todo e de estar em comunhão com o divino. “Permanecer em um barco, observando as águas e os animais, ouvindo os sons da natureza, é uma experiência quase litúrgica, eucarística”, descreve.

Para Kubitschek, esse é um momento de conexão profunda entre o corpo, a paisagem e a dimensão emocional e espiritual da existência. É nesse encontro que sua pintura busca o equilíbrio entre o que se vê e o que se sente, entre a observação concreta e a experiência interior.

Um rio que nunca volta a ser o mesmo

O São Francisco atravessa o coração do sertão e percorre biomas distintos, como o Cerrado, a Caatinga e áreas de Mata Atlântica. Conhecido como o rio da integração nacional, liga regiões, culturas e modos de vida ao longo de seu curso. A obra de Kubitschek acompanha esse percurso, mas fala também de algo menos visível: a memória de um rio que nunca retorna ao mesmo estado.

É aí que o trabalho se conecta diretamente ao tema do Revoada. “É um rio que pede proteção e cuidado para que as revoadas continuem acontecendo”, diz o artista. O nome do salão, que remete ao voo coletivo dos pássaros, ganha em sua fala um sentido ecológico preciso: sem rios saudáveis, não há vida para alçar voo.

Para Kubitschek, a arte cumpre um papel de alerta diante de um rio que corre o risco de desaparecer e sobreviver apenas como lembrança. “A arte, nesse contexto, anuncia o desespero de um rio que pode desaparecer e se transformar apenas em memória”, afirma. A preocupação, ressalta, vai além do São Francisco. “Essa questão se estende a todo o Brasil: nossos rios precisam ser cuidados.”

“A arte denuncia, provoca e apela para que a sociedade volte sua atenção para a natureza que está ao nosso redor, uma paisagem que, em algum momento, pode se tornar apenas lembrança”, completa. E resume o sentido de sua participação no salão: “Não podemos permitir que os rios brasileiros se transformem em memória.”

Arte e ciência em Santa Teresa

O salão se espalha pela cidade. As pinturas ocupam a Galeria de Arte de Santa Teresa (GAST), enquanto as esculturas pensadas para espaços abertos serão instaladas nas áreas externas do Museu de Biologia Professor Mello Leitão, ligado ao Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). A programação também chega à Rua do Lazer, ao Centro e ao Vale do Caravaggio, com entrada gratuita.

Fundado em 1949 pelo naturalista Augusto Ruschi, o Mello Leitão é, nas palavras do artista, uma referência na preservação do meio ambiente, na pesquisa e na educação ambiental. Para Kubitschek, a parceria com o museu amplia o alcance das obras. “Quando unimos o impacto da arte à força de uma instituição que atua com excelência na pesquisa, na educação e na preservação ambiental, o significado das obras ganha uma projeção ainda maior”, avalia.

O artista destaca ainda a identidade da região, marcada pela gastronomia, pela vinicultura, pelas tradições italianas e pela valorização dos produtores locais. Para ele, Santa Teresa mostra na prática como produção, cultura e preservação ambiental podem caminhar juntas, fortalecendo uma relação mais consciente com aquilo que se produz, se consome e se preserva.

Há, nesse encontro, um diálogo curioso entre paisagens. O mineiro que cresceu às margens de um rio do sertão chega às montanhas capixabas cobertas de Mata Atlântica, um dos biomas que o próprio São Francisco atravessa em seu percurso. Rio e floresta, sertão e serra, aparecem conectados por uma mesma preocupação: a de que a natureza não se torne apenas lembrança.

Da contemplação à ação

A expectativa do artista é que o público não apenas contemple as obras, mas saia da exposição com uma percepção mais ampla sobre o meio ambiente, a preservação da natureza e as escolhas feitas no cotidiano.

Para Kubitschek, a arte cria um espaço de reflexão e sensibilidade capaz de despertar novas percepções e estimular atitudes mais conscientes e ações concretas em favor da natureza. Não se trata de substituir a ciência ou as políticas públicas, mas de tocar as pessoas por outro caminho, o da experiência estética.

É no encontro entre arte, ciência, cultura, produção local e preservação que o artista enxerga a maior força do Revoada: transformar a experiência estética em uma oportunidade de pensar o papel de cada um na construção de um futuro mais sustentável. Ao levar o São Francisco para Santa Teresa, Kubitschek lembra que todo rio, de algum modo, passa por nós.

SERVIÇO

REVOADA: Salão de Artes Integradas

Quando: 3 a 30 de novembro de 2026

Onde: Santa Teresa (ES), no INMA (Museu Mello Leitão), na GAST (Galeria de Arte de Santa Teresa), na Rua do Lazer, no Centro e no Vale do Caravaggio

Quanto: gratuito (algumas atividades exigem inscrição prévia)

Concepção, produção, curadoria e expografia: Vânia Cáus

Gestão: Lourdes Ferolla

Parceiros institucionais: INMA (Instituto Nacional da Mata Atlântica), INMA (Museu Professor Mello Leitão), Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de Santa Teresa, Chalé Azul e Sebrae