O peso da lã e a leveza da luz
Laerte Ramos inaugura hoje “Escapismo” na OÁ Galeria e convida o público a atravessar as fronteiras entre o artesanal e o digital
Por Giuliano de Miranda
Vitória, 5 de novembro — O artista paulista Laerte Ramos abre hoje, às 19h, na OÁ Galeria, em Vitória, a exposição Escapismo, um mergulho sensorial e conceitual que propõe ao público uma travessia entre o peso da matéria e a leveza da imagem.
Reunindo 50 obras inéditas, entre tapeçarias, esculturas, pinturas-objeto e experimentações gráficas, a mostra coloca em cena uma poética que questiona o lugar da arte num tempo em que o toque é cada vez mais substituído pelo gesto digital.
Em Escapismo, Ramos investiga o atrito entre o artesanal e o tecnológico, transformando lã, madeira, chumbo e luz em matéria e metáfora.
Não se trata apenas de um jogo formal, mas de um ensaio sobre a própria condição contemporânea — sobre o desejo de fuga e, ao mesmo tempo, o anseio de permanência. “A fronteira entre a matéria e o mito”, diz o artista, “é também o lugar onde se experimenta a imagem como presença”.
O núcleo central da exposição é formado por sete tapeçarias tecidas à mão, que condensam o eixo conceitual do projeto. Ramos parte da repetição manual do ponto para recriar a vibração digital do pixel, transformando cada superfície em uma paisagem de energia e cor. Fenômenos naturais e energéticos — vulcões, tornados, auroras e explosões atômicas — são convertidos em abstrações vibrantes, ao mesmo tempo cósmicas e íntimas. Cada uma dessas tapeçarias carrega o subtítulo LSD – Longe Sem Destino, uma sigla que amplia o sentido de “escapismo” para além da fuga literal: trata-se de dissolver fronteiras — entre natureza e tecnologia, corpo e máquina, tangível e ilusório.
Tecidas lentamente, ponto a ponto, elas resistem ao tempo acelerado da era digital e reafirmam o fazer manual como gesto político. Nas séries Omen e Retroland, a investigação se aprofunda.
Omen apresenta superfícies densas e táteis criadas com a técnica de wetfelting, uma fusão controlada de fibras que, ao se sobreporem, criam texturas que lembram rochas, pele, nuvem. Já Retroland reúne pinturas-objeto formadas por camadas de madeira, acrílico e luz — como se o artista materializasse o tempo, empilhando fragmentos de lembrança e cor.
O conjunto se completa com Foreverandever, escultura em chumbo que representa um avião duplo — um objeto que carrega simultaneamente a promessa do voo e a impossibilidade do deslocamento. O chumbo, pesado e opaco, contrasta com o símbolo da leveza aérea.
A obra se torna, assim, um emblema do próprio Escapismo: a coexistência entre o desejo e o limite, entre o impulso de libertação e a âncora que impede o movimento. Ao longo de mais de três décadas de atuação, Laerte Ramos construiu uma das trajetórias mais sólidas e inquietas da arte brasileira.
Formado em Artes Plásticas pela FAAP, com bacharelado (2001) e licenciatura (2002), o artista acumula 54 exposições individuais, 32 prêmios e 7 residências artísticas internacionais.
Desde os anos 1990, quando começou a explorar as linguagens da gravura, cerâmica e instalação, Ramos vem questionando o estatuto da imagem e suas transformações nos meios reprodutivos.
Participou de programas de residência na França, Suíça, Holanda, Portugal, Estados Unidos e China, e representou o Brasil na Expo Milano 2015 com uma instalação monumental em cerâmica, exibida originalmente no Octógono da Pinacoteca de São Paulo.
Seu trabalho atravessa as fronteiras entre as linguagens — xilogravura, serigrafia, escultura, pintura, tapeçaria, objetos e experimentações gráficas — num movimento contínuo de experimentação. Essa multiplicidade de técnicas reflete uma coerência poética rara: em todas as fases, Ramos investiga como o gesto humano, por mais delicado ou repetitivo que seja, carrega o poder de transformar o espaço. Como curador, Ramos também conquistou reconhecimento. Em 2020, recebeu o Prêmio Marcantonio Vilaça pela mostra Compreensão do Ar (E = M²), e desde 2017 dirige o Ar: Acervo Rotativo, uma coleção independente de arte contemporânea em pequenas dimensões. À frente da produtora Studium Generale, o artista coordena residências e projetos de intercâmbio que estimulam o diálogo entre criadores de diferentes países e contextos. Em Escapismo, o artista reafirma seu interesse por materiais que resistem à obsolescência e ao esquecimento.
A lã, o chumbo, a madeira e a cerâmica — matérias que exigem tempo, contato e temperatura — tornam-se aqui instrumentos de uma arqueologia sensível da imagem. Cada obra parece perguntar: o que ainda permanece quando tudo se move tão rápido? Essa poética da presença, que insiste em existir contra a lógica da volatilidade digital, é o cerne do trabalho de Ramos. Não é à toa que ele fala de “escapismo” não como evasão, mas como reencontro.
Escapar, neste contexto, é permanecer — permanecer na matéria, no gesto, na experiência concreta da arte.
Com a mostra de Laerte Ramos, a OÁ Galeria reafirma sua vocação como um dos espaços mais pulsantes da arte contemporânea capixaba. Fundada em 2007 pela galerista Thais Hilal, a OÁ nasceu do desejo de valorizar e difundir a produção artística contemporânea, oferecendo ao público capixaba experiências estéticas que desafiam fronteiras geográficas e conceituais.
Nos últimos anos, a galeria vem articulando exposições, feiras e parcerias nacionais que conectam o Espírito Santo a circuitos ampliados de arte. Ao abrigar Escapismo, a OÁ coloca Vitória no mapa de um debate contemporâneo sobre matéria, tecnologia e sensibilidade, abrindo espaço para o encontro entre o público local e uma produção que circula entre o artesanal e o digital, entre o Brasil e o mundo. Há algo de silenciosamente político em Escapismo.
Numa época em que o olhar é acelerado e o tempo de atenção se fragmenta, Ramos propõe o contrário: a lentidão como gesto de resistência.
Suas obras pedem tempo, exigem aproximação, convidam ao tato. O visitante é instigado a atravessar o espaço não apenas com os olhos, mas com o corpo — um corpo que, como as matérias do artista, carrega peso, textura, memória. A exposição é também um manifesto sobre o poder do fazer manual como forma de pensamento. Tecendo, modelando, sobrepondo, o artista devolve à arte o seu sentido de ofício — e à experiência estética, o seu caráter de presença.
Ao final do percurso, Escapismo se revela menos uma fuga e mais uma reconciliação com o real. Entre o ponto e o pixel, o artista encontra a medida exata de um mundo em transformação: a arte como abrigo e espelho, como lugar onde o humano ainda pulsa sob a superfície das imagens.
SERVIÇO:
Exposição: Escapismo, de Laerte Ramos
Abertura: hoje, 5 de novembro, às 19h
Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h30
Local: OÁ Galeria — Av. Cezar Hilal, 1180, loja 9, Praia do Suá, Vitória – ES
Classificação: livre | Entrada gratuita

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